Diálogos com o MIMo

Os Diálogos com o MIMo é mais uma iniciativa do Museu da Indumentária e da Moda.

 

Os Diálogos tem um formato de conversa com pesquisadores, professores e profissionais de várias áreas, formações e atuações, propiciando troca de ideias e de saberes múltiplos por meio da dialogia, por entendermos que o debate de ideias e conceitos em torno de visões de mundo e práxis diversas é salutar, sobretudo no momento em que vivemos e para a garantia das polifonia e polissemia propostas. Sendo assim, a ideia não é só falar de Moda, mas falar tudo o que interessa a Moda, de forma plural.

A intenção é promover Diálogos, de acordo com a agenda dos convidados, trazendo em cada encontro uma questão, uma teoria, uma inquietação para debatermos e aprendermos juntos. Os Diálogos serão registrados e disponibilizados no MIMo, como uma das ações educativas do Museu, para que mais pessoas possam participar física ou digitalmente dessa iniciativa museológica.

Em 2014, realizamos 3 Diálogos com o MIMo em parceria com o Café della Scena e recebemos os convidados Celso Fernando Favaretto, Edmilson Felipe e Jô Souza.

Em 2015, a coordenadora do MIMo recebeu um convite para realizar um Diálogo sobre o MIMo na UNIFRAN.

 

Resumo das atividades de 2014 até o momento:

 

1o. Diálogos com Celso Favaretto

O professor nos brindou com um Diálogo instigante e generoso, intitulado “Memória e elaboração do presente: o entrelugar do contemporâneo”. O Diálogo selou com estilo e inteligência a parceria do MIMo com o Café della Scena.

Em um movimento perspicaz Favaretto colocou o lugar da moda na atualidade, ou diria, “inatualidade”. Em sua reflexão sobre a transformação em processo e o paradoxo do contemporâneo, ele diz que a moda está “entre”, ou melhor, “não é e talvez nem seja” – mas exatamente por isso não precisa ser pensada como positividade acrítica. É um lugar para a reflexão, para a criação e de transformação.

O Filósofo nos brindou com pensamentos que contribuem imensamente para pensarmos a Moda e o Museu, seguem alguns trechos emblemáticos:

“O que não é, o que talvez será ou que nunca será, esse é o tempo da moda.”

[…]

“O lugar da moda é o entrelugar. […] o espaço da fissura, o indeterminado. E o entrelugar é o espaço da reflexão.”

Sobre o museu contemporâneo ou do “inatual”, apresenta um museu de passagem, sendo que a passagem é o próprio vestígio. Assim, percorremos a investigação do vestígio, dos traços, dos restos, dos rastros, sem nostalgia, sem a fetichização do passado.

 

Só para ficar mais curioso(a), segue um trecho de sua reflexão sobre a modernidade:

“‘A modernidade […] é um exercício em que a extrema atenção para com o real é confrontada com a prática de uma liberdade que, simultaneamente, respeita esse real e o viola’. Trata-se, portanto, da afirmação do poder transformador dos dispositivos modernos, comprometidos com a produção do novo e com a efetuação de rupturas; em imaginar outra coisa que confira consistência ao presente, assim resolvendo o conflito entre o transitório e o eterno. O heroísmo do homem moderno, no pensamento, na cultura, na arte, na educação, nas atitudes e nos comportamentos, está exatamente nisto: “tomar a si mesmo como objeto de uma elaboração complexa e dura”. Uma ética, uma estética presidem às invenções desse tempo das promessas e do entusiasmo histórico. Dois conceitos são fundamentais para se entender as transformações modernas que estão sendo levadas aos seus limites expressivos nas transformações contemporâneas: de um lado, o deslocamento de fronteiras conceituais e históricas; nos conheci- mentos, na cultura, no saber; no ensino e na pesquisa; de outro, a indeterminação da experiência, melhor dizendo, o caráter in- suportável da experiência contemporânea. A incidência dessas transformações no saber, especialmente as provocadas pela tecnociência e pelas redes de comunicação, corresponde ao desgaste das delimitações tradicionais de áreas de conhecimento e da cultura e à perda da unidade da experiência. De fato, nota-se que na situação pós-moderna, o saber deixa de ser magnetizado por uma ideia; desenvolve-se por uma dinâmica interna assimilando o acaso e, através de novas mediações, transforma-se muitas vezes em instrumento de circulação mercantil e poder. O insuportável dos deslocamentos provém do fato de que os valores de consenso buscados na modernidade tornaram-se em grande parte obsoletos com o desmoronamento dos grandes discursos de legitimação. De modo que, como diz Jean-François Lyotard, estaríamos hoje assistindo a uma transformação profunda dos referenciais e sistemas; especialmente da razão instituída ou que se institui continuamente no esforço de restaurar e recompor identidades – conforme aparece nos discursos que afirmam o social, o político, o sujeito, a arte etc. –, exatamente para não se enfrentar a indeterminação contemporânea, a heterogeneidade de saberes, de práticas e experiências. As implicações de tudo isto são muito grandes, afetando o mundo do trabalho, do saber, da cultura, as práticas, a sensibilidade contemporânea, dadas as transformações que atingem as formações modernas, como a individualidade, a família, o ordenamento jurídico do Estado, a lógica cultural e as ilusões de livre escolha e de livre afirmação dos interesses do capitalismo. A globalização, a aliança entre o capital e a tecnociência, a importância cada vez maior da informação; a convivência de três espaços, o geográfico, o socioambiental e o virtual; o biopoder como administração dos indivíduos e das massas, gestão dos corpos e das populações; configuram um grande dispositivo de dominação.  É preciso, é imperioso, assim, tentar compreender estas transformações, sem dramas, mas sem negligenciá-las. O termo pós-moderno, apesar de inadequado, serve para designar qualquer coisa dessas transformações; pelo menos a atmosfera, a inquietação, os traços que misturam empenho de leveza, falta de entusiasmo, dúvida e ironia que marcam os discursos políticos, éticos, estéticos, destes tempos pós-utópicos, desta nossa atualidade. Desde que se tome como fato a visada da multiplicidade em todos os campos do saber, das práticas e dos comportamentos, a questão contemporânea pode ser assim entendida: afirmar a multiplicidade como potência da experiência contemporânea não significa simplesmente afirmar uma multiplicação indefinida de experiências e valores. A multiplicidade é relevante quando valo- riza o que se passa “entre”, o que se elabora não na continuidade e totalidade (isto é, segundo um ponto de vista), mas na “transversal”, na associação de signos heterogêneos. Mas isto não implica um simples elogio da fragmentação, pois esta pode estar postulando uma realidade já existente (que se apresenta fragmentariamente) ou um conjunto ainda por vir – o que retira a violência dos fragmentos e suas relações, que são inteiramente diferentes e irredutíveis à unidade.” (revista entreideias, Salvador, n. 01, p. 13-25, jan./jun. 2012, p. 15-16)

Sobre o convidado: Livre-docência pela Faculdade de Educação da USP (2004). Mestrado (1978) e Doutorado (1988) em Filosofia pela USP. Graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1968). Atualmente é professor efetivo aposentado da Universidade de São Paulo. É representante da FE-USP na Comissão de Museus da USP. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Estética, Educação e Ensino de Filosofia.

 

2o. Diálogos com Edmilson Felipe

O professor discorreu sobre o cinema e a literatura compreendidos como pilares enunciadores da dimensão relacional entre imaginação e realidade humanas. Propiciam um conjunto de temáticas que revelam a dinâmica cultural contemporânea.

Autônomas e dependentes, estas linguagens, cada qual ao seu modo, instigam afetividades, acionam percepções e apontam para novas referências identitárias.

O pesquisador apresentou uma análise da construção do imaginário através de produções cinematográficas e literárias, por meio de uma rica bibliografia e sua trajetória de pesquisa com o cinema e a literatura. Em sua exposição, nos brindou com a Antropologia do Sensível, trazendo pensamentos complexos para nossa reflexão: “é preciso religar os saberes para o reencantamento do mundo e do homem”. E, ainda, “reinventarmos a própria existência”.

Presenteou-nos com dois de seus livros: Antes do medo e Dias de Rock in Roll.

Sobre Edmilson Felipe: Doutor em Antropologia, professor assistente doutor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Defendeu o mestrado em 1996 com a dissertação: O cinema brasileiro de curta-metragem: uma análise da produção de Jorge Furtado e Arthur Omar. Em 2001 defendeu a tese: Por uma história do riso: Carlos Manga e a chanchada no Brasil pela PUC-SP. Participa do Núcleo de Estudos da Complexidade nas linhas de pesquisa: Itinerários intelectuais e dinâmicas culturais contemporâneas. Atua na área de Antropologia, com ênfase em Complexidade e Conhecimento, Industria Cultural, Cinema, Arte e Tecnologia e literatura. Escritor e poeta, organiza vários eventos literários na cidade. Produção Literária: O Susto do Sapiens: Ensaios antropoéticos (2000), Antes do Medo (2005) e Dias de rock and roll (2012).

 

3o. Diálogos com Jô Souza

A professora ministrou o Diálogo com o MIMo intitulado “Moda e cinema”, focando na questão de que se trata de duas indústrias que absorvem mão de obra e movimentam o PIB do país. Como numa via de mão dupla, ambas se oxigenam, se regeneram e se traduzem. A moda é mais antiga que a indústria do cinema, claro. O cinema só virou moda muito depois que surgiu com os irmãos Lumière. Nas mãos de Georges Méliès, tornou-se espetáculo e agora dita a moda, pelas suas estrelas e pelo modo como ele, enquanto linguagem, consegue traduzir todos os anseios da comunicabilidade humana.

O Diálogo com Jô Souza foi revelador. Com maestria, a pesquisadora nos guiou em sua trajetória entre o cinema e a moda. Pautando-se em filmes e críticas de cinema, mostrou-nos uma imbricada relação entre a linguagem cinematográfica e o universo da moda. Seja por meio das cores, seja pelo figurino de Alice no País das Maravilhas, Jô fez-nos imaginar e aprender com seu conhecimento.

Sobre a convidada: É formada em Relações Públicas, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Especialista em Criação e Styling de Moda e em Fashion Imagem pelo Senac e pelo Istituto Marangoni. Atualmente é professora na graduação do IED e da Pós do Senac-SP,do Centro Universitário Belas Artes-SP dentre outras Instituições em São Paulo e no Brasil. Colaboradora do grupo Sociossemióticas – PUC-CPS- SP, da revista Dobras. Atua nas áreas de consultoria de imagem, gestão de Inteligência e comunicação e pesquisa para empresas do setor de moda e cultura.

 

4o. Diálogos sobre o MIMo

A professora Márcia Merlo apresentou, na UNIFRAN, a trajetória de construção do Grupo de Pesquisa Museu da Indumentária e da Moda, os desafios da constituição de um museu digital, e, focou no trabalho museal do Acervo Imagens Fotográficas gerando um debate em torno da história e memória da indumentária e da moda. Na ocasião discutiu-se o papel da moda na constituição de identidades e a importância das memórias particulares para se pensar as modas cotidianas, sejam elas passageiras ou duradouras estão gestadas em nossas memórias e gestam nossos modos – maneiras de ser e vestir.

Sobre Márcia Merlo: É doutora e mestre em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde se graduou em História. Atua como docente nos cursos de Design do IED-SP e no curso de Relações Internacionais da FASM, onde é pesquisadora da Linha de Pesquisa em Direitos Humanos no LAI (Laboratório de Análise Internacional). É fundadora e líder do Grupo de Pesquisa – Museu da Indumentária e da Moda: pesquisa e desenvolvimento de um museu digital do Diretório de Grupos de Pesquisa do IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) e coordena a construção do MIMo – um museu digital.